domingo, 16 de julho de 2017

o medo


estava consigo em seus pensamentos, vibrando como a última gota de sangue que escorre da mordida fria de uma bala de canhão.

era tarde, fazia sentido. fazia sentido porque tarde é o momento no qual as coisas acontecem, coisas ruins acontecem sempre tarde, ainda que cedo demais.

prostrado do asfalto clareado de amarelo-cidade, não imaginava que olhar o chão de baixo seria a última retina que seus olhos teriam para olhar.

o sangue escorria forte, alcança seu cabelo e faz aquela papa nojenta que nenhum filme explora porque só o tato pode sentir: úmido, coagulado, os fios entram nos orifícios auriculares e recobrem a cera tingindo de rubro negro silêncio em caos.

não passa ninguém na rua, claro. provavelmente morrerá só amanhã de manhã, quando os ônibus proletários começam o intinerário. nenhum carro pararia ali, naquele instante. tarde, ninguém arrisca.

é breve, mas como se fosse agora sempre ele ouve o disparo, ouve o disparo que acertou seu estômago e provavelmente está dilacerando o que tinha dentro e funcionava, mas agora é morto.

morreu sem perceber. quando viu, já não era.

morreu encantado,

coitado

como iluminura podridão
Pedro Web Developer

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