estava consigo em seus pensamentos, vibrando como a última gota de sangue que escorre da mordida fria de uma bala de canhão.
era tarde, fazia sentido. fazia sentido porque tarde é o momento no qual as coisas acontecem, coisas ruins acontecem sempre tarde, ainda que cedo demais.
prostrado do asfalto clareado de amarelo-cidade, não imaginava que olhar o chão de baixo seria a última retina que seus olhos teriam para olhar.
o sangue escorria forte, alcança seu cabelo e faz aquela papa nojenta que nenhum filme explora porque só o tato pode sentir: úmido, coagulado, os fios entram nos orifícios auriculares e recobrem a cera tingindo de rubro negro silêncio em caos.
não passa ninguém na rua, claro. provavelmente morrerá só amanhã de manhã, quando os ônibus proletários começam o intinerário. nenhum carro pararia ali, naquele instante. tarde, ninguém arrisca.
é breve, mas como se fosse agora sempre ele ouve o disparo, ouve o disparo que acertou seu estômago e provavelmente está dilacerando o que tinha dentro e funcionava, mas agora é morto.
morreu sem perceber. quando viu, já não era.
morreu encantado,
coitado
como iluminura podridão
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